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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dicas de redação


Uma boa escrita de texto teórico contém vários elementos que devem ser bem manejados, desde estratégias expositivas de conceitos complexos, até o uso de vírgulas, passando por divisão de tópicos, concatenação de frases etc. A seguir compilei diversos elementos que me parecem muito úteis para confeccionar uma boa monografia, dissertação ou tese, bem como projetos de pesquisa, principalmente em filosofia e ciências humanas. Nenhum deve ser tomado como regra absoluta, pois todos dependem sempre dos casos específicos, do estilo de cada pessoa etc. Eles partem de minha experiência com orientação de pesquisas, e como parecerista de artigos e projetos, apontando erros e inadequações frequentes que encontro.

1. Todo texto é fruto de uma estratégia de persuasão. Embora saibamos perfeitamente que não está em jogo “dizer uma verdade”, o horizonte da concordância do leitor precisa estar presente como ponto de fuga. Em virtude disso, toda a argumentação necessita de escalonamento, do passo-a-passo, de tal forma que cada ideia, conceito e afirmação operem como apoios sucessivos para os anteriores, a fim de almejar a convicção final do leitor de que o texto é válido. O foco de atenção principal deve ser a diferença entre os argumentos fortalecerem uns aos outros ou apenas se justaporem como se fossem verbetes em um dicionário;

2. Embora escrevamos de forma intuitiva, mesclando várias ideias, é preciso ter clareza se X é uma afirmação ou um argumento que serve de fundamento a uma afirmação. Nem sempre é possível ou necessário distinguir, mas em vários momentos é muito inadequado deixar de fazê-lo, pois expor uma ideia e argumentar (justificar, embasar) têm valores diferentes no texto. Muitas vezes alguém afirma X como se isso fornecesse base, sustentação a uma ideia, quando, na verdade, não passa de mais uma afirmação, que precisa ser defendida; a “economia” de ‘afirmar’ versus ‘argumentar’ é um fator importante na qualidade do texto;

3. Outra ‘economia’ (ou seja, relação entre quantidades e qualidades) do texto é da presença e profundidade de conceitos. Muita gente acrescenta conceitos e temas para “enriquecer” a argumentação, quando na verdade pode empobrecê-la, pois a profusão de pontos teóricos tende a tornar cada um deles por demais ‘rasos’ e confusos. ‘Riqueza’ conceitual tem mais a ver com o aprofundamento reflexivo do que com quantidade de conceitos; como, porém, a profundidade é alcançada, entre outras coisas, pela mobilização de ideias, logo é preciso cultivar um senso especial para responder à questão: ‘esse conceito ajuda a aprofundar a ideia X ou é mais uma que disputa espaço com ela?’;

4. Um texto de mais de 5 ou 6 páginas deve conter divisões de itens temáticos; um único texto de 10 páginas para o qual não se encontrou nenhuma divisão tende a ser excessivamente “monolítico”, pois, tal como se divide um argumento em parágrafos, e estes em frases, o texto deve ser, preferencialmente, dividido em itens, para demonstrar ao leitor que se tem clareza dos passos argumentativos seguidos. Naturalmente, trata-se de uma regra geral que admite exceções, pois em alguns casos, ao se analisar um conto, por exemplo, os assuntos se sucedem de forma muito próxima, prescindindo da divisão de tópicos;

5. Ao longo da monografia, dissertação ou tese, deve-se evitar o retorno a um mesmo tema, a não ser que seja abordado sob outro viés ou perspectiva (quando então se justifica totalmente) ou quando é mais aprofundado; o erro mais comum é tratar o mesmo tópico com menor profundidade, o que não é adequado; quanto mais repetição, mais é a aparência de incerteza do que se diz;

6. Devem-se economizar radicalmente os elogios ao autor e teoria estudados; frases como “aqui a argumentação de Marx é primorosa” ou “Nietzsche foi um gênio da filosofia que refletiu de forma contundente sobre seu tempo” podem dar a clara impressão de que se quer conferir relevância ao próprio texto, fazendo a apologia do estudado;

7. Não se deve indicar com muita frequência que se está falando a partir de uma determinada teoria, dizendo “segundo Kant”, “de acordo com o filósofo de Kögnisberg”, “tal como pensa Kant” etc., pois, uma vez que já se sabe que o próprio texto é uma interpretação e uma leitura da obra X, deve-se apenas pontuar a referência a ela em alguns momentos, seja porque se trocou o texto-base, seja para não deixar a escrita “flutuando”;

8. Por outro lado, é necessário informar quando um argumento ou ideia não pertence ao autor estudado, sendo uma extrapolação. Claro que em vários momentos se fazem interpretações um tanto livres, mas ainda baseadas no texto original, mas há aquelas afirmações que precisam ser demarcadas como não presentes na obra de referência. Considerando o contexto de interpretação, de leitura de uma obra clássica, tem-se a expectativa de que tudo — salvo aviso prévio — constitui uma elucidação, uma exegese, e assim é necessário demonstrar que tanto o mérito quanto o demérito de uma afirmação são nossos, e não do autor estudado;

9. Devem-se economizar expressões que denotem dúvida ou incerteza, como “parece que”, “talvez”, “de alguma forma”, pois indicam insegurança excessiva. Uma vez que se trate de um texto teórico, subentende-se que tudo se dá no regime de uma discussão, de avaliação do leitor. As expressões acima devem ser usadas apenas quando a dúvida quanto à validade do exposto é expressiva, necessita ser considerada;

10. Devem-se retirar ao máximo os “que é”, “que são”, “que somos” etc., pois em quase todas as vezes são desnecessários e sobrecarregam o texto. Exemplo: em vez de “os conceitos que são empregados nessa análise”, use: “os conceitos empregados nessa análise”; em vez de “o autor que é muito referido por Nietzsche”, use: “o autor muito referido por Nietzsche”;

11. Frases não devem ser nem longas demais, nem curtas demais. No primeiro caso, costuma-se alterar o sujeito da frase de uma oração a outra, o que gera o efeito “em cascata”, como “aninhamento” das referências sujeito-predicado, o que torna o raciocínio tortuoso; no segundo, o resultado é a aparência de um fichamento, de um escrito feito meramente para estudo próprio, ao passo que se devem conectar mais as frases, fornecendo mais fluxo argumentativo, mais linearidade na concatenação das ideias, impedindo que fiquem como “blocos” um ao lado do outro;

12. Há um vício muito comum de usar a palavra “processo” de forma totalmente supérflua. Dizer, por exemplo, “processo de formação” é uma redundância em grande parte dos casos, pois “formação” já indica processo. Trata-se do desejo, nesses casos, de acentuar a processualidade, o decurso, e não o resultado, mas se isso se repete muito, torna-se um cacoete, um preciosismo, que, mais uma vez, sobrecarrega o texto.


4 comentários:

Renato Fabiano disse...

O professor Verlaine Freitas analisa e dá dicas sobre a elaboração do texto fe artigos e monografias (dissertações e teses). A leitura do seu texto nos trouxe a ideia de visualizar o texto metaforicamente como uma engrenagem lógica aJUSTAda, necessária e economica, particularmente quando ele afirma: "... toda a argumentação necessita de escalonamento, do passo-a-passo, de tal forma que cada ideia, conceito e afirmação operem como apoios sucessivos para os anteriores, a fim de almejar a convicção final do leitor de que o texto é válido". A experiência como professor de Filosofia na UFMG, parecerista de revistas acadêmicas e orientador de monografias (TCC, dissertações e teses) deu insumos para o autor indicar em 12 pontos os erros mais comuns e os aspectos mais relevantes em um texto acadêmico. Tal texto é apresentado como um instrumento de expressão de ideias e convencimento do outro, o leitor. Um espaço de reflexão sobre o mundo e interação com as ideias e ideiais de outros autores. Uma forma de afirmação dialética do autor enquanto ser partícipe do mundo. Com a ressalva feita por Verlaine e destacada neste comentário para se evitar excessos (de palavras ou divisões no texto), repetições (de referências a teorias ou citações), imprecisões no vocabulários (uso de expressões inadequadas), desorganização na ordem do texto. Vale a pena ler para se conhecer os casos específicos que são destacados pelo professor. 20161020~0622.

Verlaine Freitas disse...

Obrigado, Fabiano, pelo comentário. Fico muito contente que tenha gostado de minhas indicações de escrita.

Wagner Santos disse...

As estruturas mais tradicionais de textos acadêmicos e científicos são de herança cartesiana, Verlaine?

Wagner Santos disse...

As estruturas mais tradicionais de textos acadêmicos e científicos são de herança cartesiana, Verlaine?