Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O mimetismo antijornalístico


A Folha de São Paulo subiu mais um degrau em seu cinismo, e dessa vez bem alto. Um dia depois de revelar uma pesquisa em que Lula aparece com 35% das intenções de votos, apresenta outra mostrando que a maioria da população quer Lula preso. — Naturalmente, esse veículo de comunicação precisava de um antídoto para o impressionante crescimento eleitoral de Lula, apesar da metralhadora político-judicial apontada para ele todo dia, mas não se esperava que este remédio fosse tão baixo, tão mesquinho e tão anti-jornalístico.

Se sempre houve pesquisa de “intenções de voto”, agora a Folha de São Paulo produziu uma de “intenções de prender”. Ora, a prisão de qualquer pessoa somente pode ser concebida a partir da objetividade dos fatos, da processualidade penal, da observância estrita da lei e sua complexidade, com seus recursos, apresentação do contraditório etc. É um absurdo sem tamanho esse jornal anunciar para todo o país uma pesquisa com as “opiniões” de milhões de pessoas que não são incumbidas da análise concreta dos indícios de acusação e defesa. Isso significou conferir uma objetividade social a um “achismo” dos mais baixos, pois claramente insuflado pela propaganda contrária a Lula, uma verdadeira avalanche midiática que não passa um dia sem ser exercida ferozmente. Montou-se uma espécie de “tribunal popular” como se fosse algo simples, passível de exposição corriqueira como se objeto de “opinião” fosse a troca do comando da seleção brasileira de futebol.

Este procedimento demarca de forma exemplar o quanto a cultura de massa se serve de relações miméticas, de imitação, de relação especular entre imagem e mentalidade, entre espetáculo e vida real, pois as opiniões populares refletem a animosidade dos donos do poder a Lula e agora a Folha de São Paulo mimetiza como notícia o que a mentalidade pública mimetizou de seus discursos. Não é difícil perceber a força deste círculo vicioso que tende a se reforçar continuamente, pois todas e todos fazem parte de um grande mecanismo de legitimação recíproca, retro-alimentada, em que ninguém se sente sozinho, mas pelo contrário: o preconceito mais mesquinho, o achismo mais tosco deixará aquele canto sombrio da mente e ganhará a luminosidade de uma manchete de primeira página daquele que já foi tomado como “o jornal mais respeitado do país”.

A pergunta que resta é: a Folha de São Paulo chegou ao fundo do poço ético em seu empreendimento de aniquilar Lula politicamente? Ou ainda escavará mais?

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Qual inimigo queremos?


O preceito bíblico de amar ao inimigo, segundo Nietzsche, é efetivamente praticado — e na verdade segundo uma lógica pré- ou extra-moral — por aquelas e aqueles que são fortes, que possuem a suficiente nobreza de caráter e a robustez emocional de saber do mundo como campo de forças. Nesse palco de várias atrizes e vários atores, fazer valer seus princípios valorativos e sua vontade consiste em reconhecer a força e a verdade alheias em uma disputa eternamente não resolvida de forma final, derradeira. Quem é forte se rejubila com este enfrentamento na exata medida em que as jogadoras e os jogadores se enfrentam no campo aberto das possibilidades de equacionamento dos quereres.

Outro é o caso das pessoas fracas, cuja marca distintiva é a dissimulação, os subterfúgios, as espertezas traiçoeiras e, sobretudo, a baixeza de espírito, o apego às mesquinharias, tudo isto resultando na tentativa de obter uma vitória moral-moralista sobre o outro. Nesse momento, a objetividade do enfrentamento político das verdades cede lugar a uma espécie de esgrima de artifícios retóricos não apenas morais, mas moralistas.

Com base neste panorama conceitual pode-se avaliar o quão pequena e politicamente abjeta é a comemoração ufanista, pseudo-patriótica do prefeito João Dória para com a condenação explicitamente sem provas materiais de Luiz Inácio Lula da Silva. Ignorando completamente o quanto o juiz Sérgio Moro precisou se defender longamente de ser um juiz partidário, pois frequentou largamente eventos promovidos pelo próprio prefeito; desconsiderando o fato de toda a peça sentencial se basear apenas em delações obtidas com base em atenuações de pena radicais, Dória estende bandeiras do Brasil como se a condenação de seu adversário político fosse um troféu para este nacionalismo mais do que abjeto.

É bom ter adversárias e adversários, é imperioso medir a própria verdade com a alheia, é salutar sair de seu próprio umbigo e atravessar a incerteza que significa ter de se haver com o outro, mas causa nojo e até náuseas confrontar-se com uma postura tão mesquinha, baixa- e politicamente moralizante quanto a de João Dória. Essa qualificação não é levantada apenas em virtude das ações em si, mas também pelo modo como ela fomenta o mesmo tipo de atitude nas mentes de todas e de todos que aguardam apenas tais exemplos para dar vazão a uma atitude anti-política, regressiva em termos éticos e falsa como princípio humano para lidar com a diferença. Tudo o que nós queremos são adversárias/os e mesmo inimigas/os honestas/os, que saibam celebrar a luta como uma busca por uma verdade comum, e não como quem esgrima uma verdade moralista subterrânea para atingir a quem se expõe no palco das diferenças públicas e políticas.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Injustiça perfeita


A injustiça no Brasil não seria perfeita se apenas absolvesse grandes empresários e políticos poderosos flagrados em conversas altamente comprometedoras e com indícios claros de atos ilegais. Ela jamais se daria por satisfeita com a impunidade à luz do dia, servida de bandeja e temperada com elogios rasgados a quem ameaça matar delatores. Nesse mundo de uma injustiça que a cada dia se afirma soberana, é necessário, ainda, que as decisões e sentenças contra adversários políticos do sistema sejam baseadas apenas em convicções e delações obtidas sob uma pressão semelhante a tortura.

Nesse mundo, todo o sistema jurídico vai se transformando em um instrumento radicalmente iníquo da política: seu braço direito, que, junto com o dos meios de comunicação, tende a esmagar a possibilidade de um mundo melhor.

Nenhum político foi tão radicalmente investigado, e por tanto tempo, quanto Luiz Inácio Lula da Silva, e não por acaso isso se liga ao fato de ter saído de seu segundo mandato presidencial com quase 90% de aprovação popular. Como já se disse à exaustão, este é o verdadeiro “crime” deste grande estadista. Sentenciá-lo significa a celebração da lei do mais forte, da auto-afirmação de um sistema que já não precisa esconder sua predileção por A ou por B. — Não bastaria aparecer aos sorrisos com Aécio Neves, nem participar de festas e eventos promovidos por membros do PSDB: Sérgio Moro precisava condenar sem provas materiais o inimigo político número 1 daquele grupo com o qual se confraternizou abertamente tantas vezes.

Somente quando um sistema jurídico não precisa mais justificar de forma cabal suas sentenças, podendo prescindir da materialidade das provas e se basear tão-somente em delações não comprovadas, somente aí é que esta máquina se sente convicta o bastante para ser um tentáculo das forças políticas que tentam estrangular as forças progressistas.

Claro está, porém, que o objetivo não é propriamente prender Lula, pois Sérgio Moro sabe perfeitamente de sua inocência, tal como todas e todos votantes a favor do impeachment de Dilma também atestavam sua honestidade. O texto final poderia ser apenas este: “condeno Lula a não se candidatar à presidência”. De forma análoga a como as senadoras e os senadores mantiveram os direitos políticos de Dilma, pois a única coisa que interessava era tirá-la do poder, da mesma forma Sérgio Moro poderia dizer que não condena Lula à prisão: trata-se de imputar uma “culpa” apenas até onde interessa ao braço jurídico do sistema político da direita brasileira.

Por fim, a injustiça em nosso país não seria perfeita se não cumprisse um ritual perverso, condenando Lula um dia após condenar todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores assalariados no Brasil a uma perda radical de seus direitos: essa é a trajetória de nossa (in)justiça, esse é o percurso de um mundo neoliberal, que cassa direitos, que “libera” a todas e todos da base da pirâmide social a serem objeto do mais aviltante arbítrio e exploração predatória sistemática.

sábado, 1 de julho de 2017

Liberalismo medieval


O “liberal” no Brasil, como aponta o sociólogo Jessé Souza, é na verdade um “conservador”. Ele quer “liberar” ao grande empresariado industrial e principalmente financeiro as trilhas à exploração predatória não apenas de nossos recursos naturais, da telecomunicação, dos transportes etc., mas também da saúde, da educação e, agora estamos vendo, da aposentadoria e dos direitos trabalhistas. Trata-se não apenas de “conservadorismo”, mas de “reacionarismo”, pois se reage contrariando toda medida de progresso social.

Quem defende o “liberalismo” no Brasil, apoia com todas as letras o “aprisionamento” da classe trabalhadora aos meios cada vez mais restritos de seu puro trabalho sem direitos, sem perspectiva de amparo estatal, sem a garantia de se aposentar de forma digna, sem poder contar com educação e saúde públicas. O “liberalismo”, isso está claro, somente quer um estado mínimo para evitar o atendimento à classe trabalhadora no que ultrapasse o ganho monetário estritamente ligado à hora trabalhada. Tudo além disso deverá ser drenado para o bolso e os cofres do grande empresariado.

Outra — e radicalmente distinta — é a concepção do “máximo” e “mínimo” concernente  à disponibilidade financeira e política do Estado para socorrer bancos e empresas em dificuldade para cumprir seus contratos. O PROER de FHC, que despejou bilhões de reais para salvar bancos falidos, antecipou o mesmo tipo de atitude tomada pelo governo de Barack Obama na crise imobiliária e financeira de 2008: o Estado é e sempre continuará “máximo” no acolhimento, suporte e favorecimento dessas demandas absurdamente iníquas. Enquanto um programa de distribuição de renda como o Bolsa Família oferece às pessoas extremamente pobres um mínimo necessário para uma existência um pouco menos sofrida e é atacado vorazmente como “compra oficial de voto” e “sustento de vagabundas/os”, aqueles presidentes desperdiçaram dezenas de bilhões (mais de um trilhão, no caso dos EUA) para cobrir prejuízos sociais com atitudes criminosas de grandes capitalistas, mas usam como justificativa a necessidade de estabilidade do sistema.

O liberalismo regressivo de nossos tempos, o neoliberalismo, em suma, é o canto-presságio do fim da política: é a rapsódia que declama o sonho de transformar o mundo em células de trabalho geridas por capatazes que as colocam e mantêm nos trilhos. O Estado se restringiria à incumbência de robustecer o sistema ferroviário dessa malha de escoamento da riqueza para cima. Em vez de primar pela orquestração de um sistema de correção horizontal dos acordos, o núcleo central — que nem mais poderia ser chamado de “político” na acepção histórica do termo — se consumiria como avalista e fiador dos poderosos donos desses novos feudos, que voltam a ter seus servos atrelados às suas porções diminutas do que restou da partilha voraz dos grandes senhores.

Diferente do medievo, porém, esse novo feudalismo distribui não apenas migalhas, mas um poder imaginário a quem se submete a ele: mastiga-se a identificação com o núcleo de poder enquanto se engole a própria saliva, ruminando um chicle multi-colorido de valores sem substância, mas que alegram. Nessa toada de eterna planificação que nada mais faz do que lubrificar o caos das relações entre capital e trabalho a favor do primeiro, restará sempre o abrigo eterno da transcendência, vocalizado pelos emissários divinos que cobrarão sua quota financeira e de representatividade, dirigida explicitamente aos interesses do andar de cima. Colocadas/os nas fogueiras da inquisição do preconceito público elevado a norma das escolas, dos partidos e das organizações estatais estarão todas e todos que desviam dos valores pétreos e consagrados nos códigos pseudo-naturais, pseudo-divinos, abertamente cínicos.

domingo, 18 de junho de 2017

Por que a Globo quer a saída de Temer?


Em toda essa luta intestina pelo poder, travada entre representantes dos diversos poderes: políticos, jurídicos, mediáticos, empresariais etc., a faceta mais enigmática é a determinação resoluta das organizações Globo em retirar Michel Temer do poder. Considerando-se ter sido esse grupo mediático o carro-chefe do processo de impeachment, junto com juízes e procuradores-estrela da Lava Jato, e ainda o fato evidente de ele apoiar integralmente todas as “reformas” em curso, resta muito pouco para explicar este engajamento pela continuidade do “primeiro a gente tira Dilma e depois o resto”.

O fato de o mandatário da república ter sido flagrado em uma conversa com indícios de crimes graves chega a ser ridículo como este “pouco” para esclarecer o empenho dos Marinho. Não nos esqueçamos: a conversa gravada entre Joesley e Temer não foi espontânea, e sim fruto de uma ação orquestrada para produzir provas, confirmando o já anunciado nas conversas e tratativas do empresário com procuradores e juízes. Parafraseando Sérgio Machado, é impossível a Globo não saber “dos esquemas do Temer”, antes mesmo da campanha contra Dilma: tratou-se apenas do timing certo para retirar um dos pés de apoio do agora acusado como chefe da pior quadrilha criminosa do Brasil.

Considerando ser a fragilidade do governo federal um grande empecilho para não apenas a celeridade, mas até mesmo à própria aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, o empenho político da Globo seria contraditório. Inicialmente, esse paradoxo seria desfeito ao se assumir sua intenção de trocar Michel temer por alguém do PSDB, mas não é de hoje que os principais nomes do partido estão gravemente atingidos por denúncias de corrupção e desvio de dinheiro público. Faria pouco sentido armar toda esta a ação combativa com o propósito de catapultar João Dória ao Palácio do Planalto, considerando sua pouca experiência administrativa, ausência de fatos capazes de engrandecer sua imagem, pouquíssimo carisma popular, baixíssima representatividade eleitoral no nordeste etc.

Em suma: falta algum elemento propositivo a compensar a instabilidade política e a deslegitimação de um governo até agora completamente orientado a cumprir os objetivos do grande empresariado, cujo principal porta-voz são as organizações Globo.

A única resposta viável me parece ser o desejo de apoiar Jair Bolsonaro à presidência da república. A história política, pelo menos desde o início do século XX, tem exemplos fartos de a extrema direita ser tomada como “solução” pseudo-política das massas em situação de desesperança, anomia, instabilidade econômica e institucional. Em vez de lutar pela construção de mecanismos inclusivos e de distribuição das oportunidades de trabalho, favorecendo a distribuição de renda e o alargamento da participação democrática nas decisões, tem-se exatamente o inverso: uma regressão político-democrática, tomando o sacrifício individual como preço por uma ordem e estabilidade impostas desde cima pela mão suficientemente forte, cujo autoritarismo se coaduna perfeitamente com a “condição de desamparo”, tão bem estudada por Freud. Aquele defensor dos governos ditatoriais e dos mecanismos de tortura se presta especialmente bem a esse papel. Ao contrário de João Dória, sua inexperiência administrativa lhe é favorável, pois o regime imaginário a ser mobilizado em sua propaganda mediática espontânea é exatamente a atuação extra-institucional, não-política, agindo como um rolo compressor sobre não apenas a desordem, mas fundamentalmente sobre as diferenças, sobre as heterogeneidades das demandas. Em vez do esforço de construção de uma sociedade igualitária, tem-se o princípio regressivo de achatamento das diferenças por imposição de cima para baixo.

O Brasil sempre foi uma sociedade autoritária, golpista e avessa ao espírito democrático, tendo experimentado breves momentos de estabilidade para a construção do espírito de cidadania. O projeto político favorecido pelas organizações Globo é uma reação forte e radical ao que os governos de Lula e Dilma representaram como construção democrática. Quanto maior a percepção de instabilidade das instituições políticas, quanto maior a descrença e a desesperança em soluções “políticas”, mais se pavimenta a via do autoritarismo. Esperamos que o Brasil não siga este caminho.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dicas de redação - 3


Trago mais uma série de 12 recomendações para confecção de textos, principalmente teóricos, além das outras duas (links: primeira - segunda).

1.            Quando se escreve com base em concepções de outros autores — e isso constitui quase a totalidade dos trabalhos acadêmicos de monografia, dissertação e tese —, é preciso considerar que a função, a validade, o significado e a importância das formações conceituais lidas nos textos de referência não são simplesmente “transpostos” para a análise e o comentário. Muitas ideias no texto clássico podem ser paradoxais e obscuras, mas adquirem legitimidade por seu posicionamento na argumentação geral do autor. Na medida em que escrevemos um texto próprio, é necessário produzir uma nova legitimação para tais ideias, quase como se elas fossem nossas próprias. Em suma: não é porque uma formulação incompreensível ou equivocada está no texto original que ela possa ser “duplicada” em uma tese sem uma fundamentação de seu valor teórico.

2.            Ao se comentar um texto clássico, não é uma boa estratégia “narrar” o que é dito nele, dizendo: “inicialmente, o autor fala do conceito X”; “logo em seguida, o autor passa à temática Y”; “depois de falar sobre o núcleo de seu texto, o autor inicia a abordagem...”, pois isso confere a nosso texto a feição de um fichamento ou material de estudo. Há momentos em que esse tipo de exposição é legítimo e necessário, mas é preferível tecer um comentário com uma exposição conceitual própria, sem “contar o que acontece” no texto de referência.

3.            No uso de citações diretas (com aspas ou em bloco de texto recuado), é preciso ter atenção para não repetir o que a passagem citada diz. Uma vez que já se explicitou a ideia original, o comentário necessariamente deve ir além dela, pois caso contrário não se justifica usar o recurso da citação, cuja razão de ser reside precisamente no fato de a ideia ter sido expressa de forma concisa e enfática na respectiva passagem do texto original. — Eu tenho por regra restringir a um mínimo possível as citações diretas, por considerar uma tarefa precípua do trabalho interpretativo a colocação em perspectiva, a crítica, o debate das ideias dos textos clássicos, e não apenas sua exposição ou apresentação.

4.            Algumas palavras funcionam como “coringas” na escrita, aparentando dizerem alguma coisa, quando na verdade falam mais e mais, tornando o texto prolixo e, no limite, sem conteúdo. É o caso de “elementos”, “relações”, “aspectos”, “fatores”, “condições”, “circunstâncias”, que em grande parte poderiam ser simplesmente eliminadas sem acarretar perda alguma no argumento.

5.            No afã de demonstrar certeza e atitude propositiva, muitas vezes sobrecarrega-se o texto com palavras modalizadoras desnecessárias, como “todo”, “todos”, “sempre”. Não constitui diferença substantiva dizer, por exemplo, “Todos os seres humanos possuem a capacidade de linguagem”, pois “Os seres humanos possuem a capacidade de linguagem” já abarca a totalidade de nossa espécie. Trata-se de um desejo de reforço retórico que, na verdade, muitas vezes apenas dissimula falta de conteúdo.

6.            Embora esteja presente em textos acadêmicos bem conceituados, deve-se evitar o emprego frequente de “alguns comentadores dizem que...”, “muitos autores concordam com...”, “a maioria dos intérpretes diria que...”. Tais expressões devem ser preferencialmente seguidas de exemplos de pessoas que efetivamente atestam o que foi dito, pois senão tendem — com seu excesso — a configurar um “blefe”, uma afirmação vaga para dar suporte à própria argumentação que frequentemente não é comprovada.

7.            Deve-se evitar o excesso de expressões que denotem convicção, como “certamente”, “sem dúvida”, “seguramente”, por dois motivos: primeiro, porque tais partículas na verdade significam dúvida, incerteza; comparando as frases: “meu carro está no estacionamento” e “certamente meu carro está no estacionamento”, vemos que na segunda não há um saber pleno do fato, pois a partícula inicial coloca todo o peso cognitivo no sujeito, em seu estado de consciência, e não no vínculo com o objeto; outro motivo é que, devido exatamente a esse caráter paradoxal de tais vocábulos, eles demonstram a necessidade de auto-afirmação, de reforço das convicções, colocando em dúvida o quanto se possui, de fato, clareza da validade dos argumentos.

8.            Deve-se evitar a reafirmação do objeto ou pessoa em orações diferentes em uma mesma frase, principalmente com o uso de “o mesmo” ou “a mesma”; exemplo: em vez de “Uma vez que a ação dos políticos diz respeito ao bem comum, a mesma [ou: ela] não tem valor independente da opinião pública”, é preferível: “Uma vez que diz respeito ao bem comum, a ação dos políticos não tem valor independente da opinião pública”.

9.            É recomendável economizar ao máximo expressões que denotem quantidade indefinida como “vários”, “diversos”, “alguns”. Em boa parte das ocorrências, não acrescentam informação alguma, pois se limitam a estipular que a afirmação tem como objeto uma parte do universo dos referentes, o que frequentemente já está subentendido; em vez de: “Essa teoria contradiz diversas práticas científicas em voga na segunda metade do século 20”, é preferível: “Essa teoria contradiz práticas científicas em voga na segunda metade do século 20”. Além disso, elas tendem, com seu excesso, a indicar certa hesitação quanto à validade do que se diz.

10.        Outro acréscimo desnecessário porque também supérfluo são as palavras “possível” ou “possíveis”. Em alguns momentos, são úteis por indicarem viabilidade, mas, em geral, não acrescentam nada ao discurso. Exemplo: “Dentre as alternativas possíveis para o agente moral...”: se alguém decide segundo princípios morais, logo as alternativas já são possíveis, de modo que a frase não perde nada sem esse vocábulo: “Dentre as alternativas para o agente moral...”.

11.        Deve-se manter ao máximo a linearidade do texto, sem interpolar verbos com regências diferentes e outras formas prejudiciais ao fluxo de leitura. O exemplo mais claro é quando se interrompe a continuidade da frase com verbos ou adjetivos que solicitam preposições distintas: em vez de “A vida em sociedade tem origem na, e ao mesmo tempo depende da, observância das leis”, deve-se usar “A vida em sociedade tem origem na observância das leis e depende dela”;

12.        Embora não haja, em princípio, impedimento ao uso de expressões coloquiais em textos teóricos, elas não são recomendáveis, e seu excesso deve ser totalmente evitado. Uma vez que tais textos, particularmente no âmbito da filosofia e das ciências humanas, lidam com a articulação de vários temas parciais em um complexo geral, muitas vezes surge a necessidade de dizer que um/a autor/a “chama a atenção” para determinado aspecto de um problema. Essa é uma expressão por demais coloquial, e deveria ser substituída por “ressalta”, “enfatiza”, “salienta” ou “focaliza”.